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sábado, 27 de fevereiro de 2021

O REALISMO E O IDEALISMO : " REALISTA A PESSOA QUE ENCARA A VIDA TAL COMO A VIDA É, IDEALISTA AQUELA QUE IMAGINA A VIDA TAL COMO DEVERIA SER""

 




"O REALISMO E O IDEALISMO"


Chamo realista a pessoa que encara a vida tal como a vida é, e idealista, aquela que imagina a vida tal como deveria ser. O idealista sofre muito uma vez que, não podendo modificar o mundo, sente-se deslocado, vivendo obrigado em um mundo que não aceita. A pessoa realista sabe que o mundo é assim e se desejar viver neste mundo, há que aceitá-lo tal como se manifesta a seus olhos.


A pessoa idealista no mau sentido desta palavra, quando mora em um lugar que ela não gosta, passa os dias renegando o fato de morar ali. É muito longe, o comércio é fraco, a condução é escassa, as pessoas da vizinhança são muito feias ou ignorantes; e no entanto, não se muda dali. A pessoa realista quando sente as dificuldades do lugar onde mora verifica se há possibilidades de mudar o ambiente ou mudar-se dali; se não há, procura encontrar os valores positivos do local (e sempre há) e, descobertos esses aspectos positivos, valoriza esses aspectos e, assim diminui as coisas de que ela não gosta.


Isso vale também para as pessoas. Muita gente se desgosta de um filho, de um marido ou de uma esposa, porque eles não correspondem ao ideal que elas imaginaram e sofrem com isso, passando o tempo a criticar essas pessoas, evidenciando os seus defeitos e parecendo não ver as qualidades delas. As pessoas são o que são e nós não vamos mudá-las. As pessoas são seres humanos, possuem vontade, desejos próprios que às vezes, não coincidem com os nossos. Se você vive assim, busque na pessoa que lhe causa aborrecimento, alguma coisa que ela possua de positivo e trabalhe esse aspecto. Certa vez eu disse isto a uma turma na Universidade e uma aluna virou-se para mim e me disse: "É ruim hein! Eu conheço pessoas que não têm nada de agradável ou de elogiável".


Lembrei-me então de uma história, lida ou ouvida, em algum lugar de que já não me lembro mais. A história é mais ou menos assim: Um mestre, iniciado, caminhava com seus discípulos por uma estrada que desembocava em uma aldeia. De repente, o grupo viu, quase no meio de uma estrada, o cadáver apodrecido de um cachorro. O sol batia sobre a carne que se decompunha e o odor era insuportável. Um dos discípulos muito indignado comentou: "Isso é um absurdo! Nunca vi coisa igual. Uma carniça exposta, empestando tudo com este fedor insuportável. Imagino como deve estar o nosso mestre cujas narinas, muito sensíveis, estão sendo agredidas por esse odor que causa náuseas".


Todos concordaram com esta observação.


O mestre, porém, aproximando-se mais do animal morto, depois de um breve exame disse: "Mas que belos dentes ele tinha". Se o mestre encontrou na carniça algo interessante, porque também não podemos fazer o mesmo com as pessoas? Talvez nos falte olhos de ver, como dizia Jesus.


Lembro-me de um fato acontecido comigo, há muitos anos em Nova Iguaçu. Eu estava começando no Espiritismo e fui convidado para participar de uma caravana que, costumeiramente, visitava os presos na cadeia local. O líder do grupo me pediu que, ao chegar lá, falasse algo para os presos. Eu aceitei a incumbência.


Ao chegarmos, o carcereiro nos advertiu que fizéssemos nosso trabalho mas evitássemos nos aproximar demasiadamente dos presos que estivessem em celas, principalmente de um que estava em uma cela separada. Depois que ouvimos essa recomendação, iniciou-se o atendimennto que, ao final, seria concluído com a fala. Tudo foi feito conforme o previsto. Ao final de minha fala, que foi feita sob um sol inclemente de verão, ouvi uma voz que me chamava: "Professor!. .. Professor!. .. Professor!" Voltei-me e vi que a voz vinha do preso eu estava na cela separada. Tive um breve momento de hesitação, mas fui até bem perto da cela. Era um negro alto e forte, vestido com uma bermuda cinza.


- O que deseja? Perguntei.


- O negócio é o seguinte. Eu estava vendo o senhor daqui falando nesse sol todo, suando muito. Aí eu achei que o senhor poderia estar com sede e lhe botei um pouco de água aqui na minha canequinha. O senhor bebe? Tá limpinhal


- Bebo sim. Respondi. Muito obrigado!


O que mais me impressionou foi o fato de que os religiosos que estavam comigo não notarem o meu desconforto. Foi exatamente a "pior pessoa dali" que se apiedou de mim. Que belos dentes ele tinha repito, lembrando-me do caso do mestre e do cachorro morto. Penso que nós deveríamos no trato com as pessoas difíceis, verificar se, naquela pessoa aparentemente tão ruim, não existe algo de bom.


José C. Leal

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