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quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

OUVIR COM O CORAÇÃO ""SOMENTE QUANDO SE PODE OUVIR COM O CORAÇÃO, É QUE A MENSAGEM ENCONTRA RESSONÃNCIA E PODE REPERCUTIR NA ALMA QUE CHORA"

 

     


         OUVIR COM O CORAÇÃO


Além da faculdade de escutar-se com os ouvidos, pode-se fazê-lo também com a mente, com a emoção, com interesse, com malícia, com descaso, com ressentimento, com alegria, com o coração ...


A arte de ouvir é muito complexa.


Normalmente se ouvem as informações pensando-se em outras questões que predominam, desviando a atenção e impedindo que se fixem as impressões daquilo que se informa.


Algumas vezes, ouvem-se as narrativas que são apresentadas com estados de espírito crítico e perdem-se os melhores conteúdos, porque não estão de acordo com o pensamento e a conduta de quem escuta.


Em diversas oportunidades, ouvem-se as pessoas com indiferença, pensando-se nos próprios problemas e inquietações, distantes do sofrimento alheio, por considerar-se muito grande o próprio.


É comum ouvir-se por obrigação social ou circunstancial, estando-se noutro lugar e situação mental, embora fisicamente ao lado.


As criaturas humanas convivem umas com as outras, mantendo-se sempre estranhas, não conseguindo sair do próprio cárcere em que restringem os passos, embora preservando a aparência de livres.


Por conseqüência, a solidão e a depressão aumentam na razão direta em que se avolumam os grupos sociais, sempre ávidos de novidades e posses transitóriias, quase coisas nenhumas.


A saturação que decorre do mesmismo, das atividades repetitivas, embora de alta gravidade, que terminam por se transformar em corriqueiras para quem as escuta, responde pelo aturdimento e desinteresse daqueles que se colocam na condição de ouvintes.


Especialmente as pessoas que escutam as narrações dos sofrimentos humanos, de tal forma se acostumam com os dramas e tragédias que, por mecanismo defensivo, distanciam-se dos fatos e oferecem palavras destituídas de emoção e de significado, que momentaneamente atendem aos aflitos, sem os confortar com segurança.


É compreensível essa atitude, porque também são indivíduos que sofrem pressões, angústias, ansiedades e organizam programas de felicidade que não se completam conforme gostariam.


Tornam-se, desse modo, ouvintes insensíveis. Despertando para a circunstância aflitiva, de que eles também necessitariam de ser ouvidos e orientados, na solidão em que se encontram, nas necessidades a que estão expostos, são induzidos a fazer uma avaliação de conduta, mudando de atitude em relação àqueles que os buscam.


Passam então a ouvi-las com o coração.


Isto é, participam da narrativa do outro com espírito solidário, saindo da própria solidão.


Ouvir com o coração!


Quem narra um drama é gente que, como tal, deve ser considerada.


Não é um caso a mais, um cliente, um necessitado, um pesadelo do qual se deve descartar.


Está sobrecarregada e não sabe como prosseguir.


Necessita de ajuda. Requer atenção.


Pode ser molesto para quem ouve. No entanto, uma palavra dita com o coração consegue o milagre de modificar-lhe a visão em torno do que lhe ocorre, encorajando-a para prosseguir no cometimento.


Um sorriso de compreensão dá-lhe um sinal de que está sendo entendida e encontrou alguém que com ela simpatiza e dispõe-se a ser-lhe amigo.


Escasseiam os amigos, os afetos verdadeiros. Multiplicam-se aqueles que fazem parte dos mortos-vivos da sociedade consumista, quando ela necessita de seres que pensam e que sentem, vibrando em espírito de solidariedade.


Cada pessoa é um país a conquistar-se e a ser conquistado.


Particularmente, quando está fragilizada, isolada na ilha da sua aflição, perdida na fixação do sofrimento, anseia por outrem que lhe possa arrancar a âncora infeliz que lhe retém a embarcação existencial nesse penhasco sombrio.


Somente quando se pode ouvir com o coração, é que a mensagem encontra ressonância e pode repercutir na alma que chora.


Não poucas vezes, o cansaço que a todos acomete, a irritação que se deriva dos problemas quotidianos, o mal-estar decorrente dos problemas existenciais armam o indivíduo de indiferença pelo seu próximo, tapando-lhe os ouvidos do coração.


Jesus o disse com muita propriedade: ... Eles têm ouvidos, mas não ouvem.


Os seus são ouvidos bloqueados para o mundo exterior, em razão dos conflitos internos e dos estrídulos sons morais que os estremecem e agoniam.


Há, no entanto, uma forma para a mudança de conduta, beneficiando-se e auxiliando aos demais.


Procurar ouvir em cada ser uma história, como se fosse um escritor, um jornalista, alguém interessado na outra vida.


Descobrir o novo, o inusitado no seu próximo, com olhos mais percucientes, penetrando no âmago da ocorrência.


Deixar-se inspirar pelo outro, pela sua necessidade, pela sua aflição, pela sua alegria e mensagem, quando isso ocorrer.


Além de ouvir, oferecer algo em troca: uma palavra alentadora, um gesto fraternal em forma de abraço, um sorriso compassivo, qualquer coisa que responda ao suplicante de maneira encorajadora.


Ampliar o coração no rumo de quem fala ou de quem apenas, em silêncio, demonstra a sua terrível aflição.


Ouvir com o coração é também uma forma feliz de falar com o coração, mediante ou não o uso de palavras.


É vibração de amor que se expande e que retorna em música de solidariedade.


Os médicos, invariavelmente, utilizando-se do estetoscópio, auscultam o coração dos seus pacientes, mas raramente escutam a mensagem discreta que ele transmite, pedindo socorro fraternal, ajuda emocional, bondade estimuladora.


Aprende, tu, a ouvir com o coração, tudo quanto outros corações estejam procurando dizer-te. Descobrirás um mundo totalmente novo, enriquecedor, no qual te encontras e ainda não havias percebido, alegrando-te com a honra imensa de estar nele e ajudá-lo a ser cada vez mais feliz.


Joanna de Ângelis

POSTAGENS ATUAIS

AUTOCOMPAIXÃO: "Todo aquele que se faculta a autocompaixão neurótica é portador de insegurança e de complexo de inferioridade, que disfarça, recorrendo, inconscientemente, às transferências da piedade por si mesmo, sem qualquer respeito pelas demais pessoas."

  Psicologicamente,  o homem que cultiva a autopiedade desenvolve  tormentos desnecessários que o deprimem na razão direta em que a eles se ...